IronMan 70.3 Boulder EUA 2017

Uncategorized

IronMan 70.3 Boulder EUA 2017

A minha participação no Ironman 70.3 Boulder nos EUA coroou uma experiência fantástica que tive. Foi a realização de um sonho!

A prova foi realizada no sábado, dia 05/08/17. Porém antes disso teve todo um caminho.

Fui para o aeroporto em Brasilia na noite de domingo, 30/07, pegar meu vôo com destino a Denver, com uma pequena escala em Miami.

Check-in realizado, tudo certo para o vôo, quando 20’ antes do embarque nos informam que ele foi cancelado e partiria 10:00 da manhã no dia seguinte.

Esse era o horário programado para minha chegada em Denver. Lascou! Avisa o amigo que está indo em outro vôo que não será possível irmos de Denver a Boulder juntos no mesmo carro.

Inclusive já não podia mais cancelar o aluguel do carro programado. Mas vamos nessa que ainda dará tempo de chegar para o curso que iria fazer na Training Peaks, que iniciava na terça, 8:00.

Volta pra casa, dá mais um beijo na esposa e volta pro aeroporto cedo no outro dia. Tudo certo dessa vez, o avião não falhou.

Disseram que o vôo havia sido cancelado por falhas mecânicas. Já havia perdido minha conexão em Miami, então me encaixaram em outra de 20:30, para Denver.

Foram 4 horas no aeroporto de Miami aguardando a hora do embarque. Sentadinho curtindo uma música nos meus fones de ouvido.

Próximo da porta de embarque vejo uma movimentação estranha de um aglomerado de gente se dirigindo de lá para outra porta. “Opa! Tem treta aí!”

Me dirigi até o balcão e questiono o comissário. O vôo havia sido cancelado e deveria me dirigira ate o portão “xyz” para procurar um novo vôo.

F*! Vou perder o primeiro dia do curso. Uma fila quilométrica havia se formado em frente ao balcão. Foram 2 hrs para ser atendido, mas pelo menos fui trocando ideia na fila sobre treinamento com um americano que queria ser jogador de futebol.

Bom para ir treinando meu inglês indígena… hehehe.

Me realocaram para um voo de 5:00 com destino a Denver, com escala em Charlotte. Chegada prevista para as 12:30 de terça e ainda tinha que pegar meu carro alugado e rasgar na estrada até Boulder. Que alegria!!

Como teria que estar de volta no aeroporto em 4:30’, resolvi ficar por lá mesmo do que ter que bater perna atrás de hotel e depois do hotel para o aeroporto.

Não foi uma noite muito boa no aeroporto. Lugar barulhento da peste. Mas foi… vamos…

Embarquei para Charlotte! Olhei a diferença do horário da chegada do vôo para o horário de saída do outro para Denver. Suave…10’!

Tive que sair correndo do avião para não perder o outro. Correria, pace de 3:00/km, mas deu certo! Já tava todo mundo me aguardando no vôo.

Chegada em Denver tranquila, depois de tanto problema com vôo, meu medo era minha bicicleta. Não tive mais contato com ela depois de despachar em Brasilia.

Surpreendentemente ela estava me aguardando separadinha no desembarque. Ótimo! Vamos ao carro.

Aluguei um sedan com porta malas grande para caber a bike, mas a moça da locadora me recomendou uma SUV, principalmente pelo GPS integrado.

Eu realmente iria precisar de um GPS. De carrão e GPS fui desbravando a highway nunca antes dirigida por este tupiniquim. Apesar da pista larga, estresse total, cheio de saída e entrada, aqui pode ,ali não pode, velocidade tal para X, velocidade Y para Z, etc.

Coisas bem simples, mas estressantes naquele momento para mim que não é habituado com as métricas do GPS, entre o que ele mostra e que você vê. Mas Boulder tava logo ali.

60km de estrada depois, chego a Boulder por volta de 14:30. Jogo as malas no hotel e vou direto para o curso.

Encontro meu amigo Guga Guedes para me atualizar sobre o que tinha perdido e me ligo que estou com a mesma roupa desde segunda de manhã. Nada legal isso… hehehe

Mas vamos nessa! Curso muito bom da norte-americana Training Peaks, plataforma avançada de planejamento e acompanhamento de treinos, que uso para mim e com os atletas que acompanho no grupo Corrida Perfeita Black.

No final do primeiro dia desbravamos a cidade, a capital mundial do Endurance.

Subimos de carro a Red Line, via que levava até o alto da montanha, cartão postal da cidade. 500m de acensão em 4km. Fotos e filmes lá do alto é uma certeza. Amanhã a gente volta pra subir isso aqui pedalando.

Saímos pela manhã cedo para “escalar” a montanha. Me senti pedalando no tour de France em uma etapa de montanha. Mata fechada no zigue e zague da estrada, eis que surge um cervo cruzando a pista correndo.

Cuidado, animais na pista! E não era só a gente, hehe…

Ia subindo e curtindo todo aquele ambiente novo para mim e contemplando a felicidade de poder estar ali treinando. Lá do alto da montanha, vendo o sol nascendo no horizonte, minha vontade era ficar por lá. Mas tinha que descer, então vamos!!

Guga desceu na minha frente e fomos fazendo o zig-zag agora na descida. O cheiro de borracha queimada dos freios dele subia forte. E eu com minhas rodas de carbono, preocupado em ficar sem freios.

Não tinha como deixar embalar nem um pouquinho, se não iria transformar a curva em uma reta, melhor, em uma ribanceira. Mas com calma e pavor, descemos na boa e fomos para mais um dia de curso.

Ao fim do dia fomos para a festa de recepção aos participante do Summit de Endurance que se iniciava no outro dia.

Festa realizada na sede da Rethul (Líder mundial de bikefit) ao lado da Specialized (Líder mundial no mercado de bicicletas). Ou seja, estávamos bem localizados.

Encontramos lá nosso amigo e companheiro de aventuras, Marcelo Lopes, que chegava para o Summit e também iria dividir quarto conosco.

Evento bacana, bate papo com Ben Hoffman (Cara que ganhou o IRONMAN Africa do Sul em que estivemos em abril) e Tim Dom (Atual recordista mundial do IronMan), ambos também iriam competir no 70.3 de sábado.

Quinta-feira chegou e novo curso se iniciou. Agora na Universidade do Colorado. Pense numa construção imponente e uma estrutura impecável. Bateu na hora uma saudade tremenda da minha querida Universidade de Brasília.

Evento com várias palestras interessantes de pessoas importantes para a história dos esportes de Endurance.

Dentre a programação do evento ainda haviam oficinas de biomecânica. Dentre ela a de corrida. Eu diria que foi o auge desse evento para mim.

Ministrada por Christy Barth, eu a vi falando em inglês o que eu venho falando em português no Corrida Perfeita e para meus alunos há algum tempo. Fantástico! Eu estou no caminho certo!

Me senti aconchegado por uma instituição enorme. As dúvidas em que os cientistas gostam de se esconder, ali não foram motivo de recuo da ideia, e sim de avanço.

Ao fim do dia, era hora de correr para fazer retirada do kit para a prova. Tudo muito corrido, porém deveras divertido. A companhia destes amigos fez toda a diferença.

Mais um treino pela manhã. Dessa vez por estradas mais planas. A estrada era boa. O motorista te dava espaço. O visual era fantástico.

Algumas vezes rolava até uma ilusão de ótica, olhava para a pista, era uma descida, mas se parasse de pedalar a bike parava, Estava subindo!! Bom demais!

Depois do pedal, uma corrida leve. Passeio que saia da porta do hotel e cruzava parques e casas muito bonitas. Mais uma vez me senti muito grato por estar vivendo isso.

Quarto dia de curso e já com a cabeça na prova que seria no dia seguinte. A regra era pé pra cima.

Dessa vez teve Laboratório de Biomecânica de natação. Foi muito bom analisar o movimento do nado do Marcelo em uma “piscina aquário”.

Eu tava que nem “pinto no lixo”, vivendo o que gosto. Só faltava mais uma coisa, competir!!!

Sábado de madrugada saímos cedo do hotel para fugir do trânsito da chegada da prova. Não deu, ficamos nele 45’ até estacionar o carro.

Mas com tranquilidade e ao som de Natiruts, chegamos na transição para dar o último ajuste e nos posicionar para a largada. Foi bem legal ver gente de todas as idades e tamanhos se aprontando. Era realmente uma prova bem popular por lá.

A natação seria realizado no lago da reserva, em uma volta de 1900m. Balizaram o percurso por bóias de 100 em 100 metros.

A largada foi realizada em ondas por faixa etária saindo a cada 5’. A minha foi a quarta onda e a primeira da categoria 35/39. Na minha categoria haviam 350 atletas.

Como sempre estava apreensivo para a largada, me posicionei bem no meu grupo, para evitar sufoco. Dada a largada tudo correu bem. Nadei tranquilo e reto, o que não era comum.

Comecei a pegar os atletas mais lentos da onda anterior e consequentemente levar uns chutes e tapas sem ver de onde vinha. Sem contar as vezes que passei por cima de um ou outro sem querer. Normal para esse tipo de largada e competição.

Entre mortos e feridos, fui indo bem, porém me sentindo um tanto ofegante demais. A altura da cidade poderia estar me afetando (Boulder fica a 1670m do nível do mar) ou eu apenas estava mais uma vez fora do ritmo certo para a prova.

Quando saí da água e olhei para meu relógio, fiquei muito feliz. 30’02”!! Só que estava me sentindo meio afogado. Peguei a bike e reparei que não haviam muitos fora da água. Todos atletas tinham a idade gravada na panturrilha.

Foi bom para eu “controlar” minha posição na prova e me distrair positivamente imaginando minha possibilidades de desempenho. Primeiros 5km foram uma agonia. Ainda “mareado” da natação, não conseguia fazer força na bike e alguns atletas me passaram. 3 para ser exato.

Chegando na estrada, era um trecho rápido, comecei a me sentir bem e acelerar a bike. Que sensação boa! Ultrapassando um monte de gente e sentindo a bike voar. Tinha hora que faltava dente na coroa da bicicleta para subir a velocidade.

E assim foi fluindo e me divertindo. Me agoniando nas descidas que eram na verdade subidas. E relaxando nas descidas a mais de 70km/h.

No meio do percurso vi um atleta da minha categoria parado por problemas na bike. “Opa!! Olha aí o pódio caindo no meu colo!” Realmente não sabia minha posição, mas pensar positivo só tem benefícios nessas horas.

Ao final do percurso da bike fiquei espantado com a hora que ia começar a correr. Tá muito rápido!! Eram 2h e 50 e poucos minutos de prova. Era só meter um sub 1h300 na meia que tava tudo certo. Ia bater o tempo sonhado em minha cabeça.

Entreguei a bike e sai pra correr solto. Na percepção de esforço. Eram duas voltas no parque de 10 e pouco cada. Primeira volta suave. Segunda “pra morte”.

No km 2 comecei a sentir cãibra na perna direita, mas nada grave. Daqui a pouco o corpo se acostuma com a nova posição de fazer força e vamos nessa. Corpo adaptado, tudo certo. Corrida fluindo dentro do programado.

Eis que no trecho de cascalho, próximo do 8km, uma pedra pontuda entra bem no buraco da sola do meu tênis. O buraquinho que serve pra escoar água. Mexia os dedos e o pé para ver se essa pedra se realocava e parava e me perturbar.

Quando o chão era liso não tinha problema, porém quando pegava a parte mais irregular e com pedras, o solo pressionava a pedra e a pedra pressionava meu pé.

Eu não ia parar, já estava vendo um cara da minha categoria logo a frente, depois eu cuido desse machucado. Pé na estrada! E assim fui indo. Busquei mais dois da minha categoria. Ótimo! Se der mole to no pódio.

Faltavam 3 km! Agora é acelerar e bater o sonhado tempo de 4h20.

Deu não! A musculatura posterior da perna esquerda puxou querendo travar na cãibra. Era administrar a força e a dor no pé para não ser ultrapassado por ninguém e manter minha posição “X”.

Poupei energia para um possível ataque final e sem olhar para trás cheguei na reta final. Já entre as grades olhei para trás para não ser surpreendido. Tinha ninguém!

Era só curtir!!! Cheguei!! 4:22:02.

Novo recorde pessoal na distância 70.3! 2’02” acima do meu tempo sonhado, mas muito feliz!!

Um pouco depois encontrei meus amigos e festejamos o feito positivo de todos. Possivelmente nos classificaríamos para o Mundial e estávamos em busca disso.

Com o celular na mão antes de sair o resultado oficial, Guga e Marcelo me disseram que eu havia ficado em terceiro na minha categoria, 15” atrás do segundo.

Eu não acreditei. – “Vcs estão me zoando!!”. – “É sério, olha aqui!” Me mostraram o celular com o meu tempo e posição. Pódio em prova de IronMan e em Boulder!?!

Meio incrédulo ainda, chorei. Chorei de alegria! Chorei pela realização! Chorei pela felicidade de sonhar e alcançar. A felicidade para ser completa tinha que ser compartilhada.

Liguei para minha esposa e contei chorando o que acontecera e a agradeci por estar ao meu lado e tornar tudo aquilo possível. Ninguém conquista nada sozinho.

E eu graças a Deus tenho muita gente ao meu lado quem de alguma forma contribui para que eu realize os meus sonhos. Só tenho a agradecer.

E esse troféu é o símbolo da conquista de um sonho, muito mais do que de uma prova. O sonho que vivi nesta semana em Boulder, Colorado, USA.

O que achou dessa saga? Algum ponto lhe chamou mais atenção? Deixe seu comentário logo abaixo. Sempre é bom saber sua opinião.

Vamos que vamos, sempre em busca da corrida perfeita!